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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Breves relatos de Sri Ramakrishna (parte II)

Ele deve ter vindo mesmo de um Admirável Mundo Novo e dizia coisas que ninguém dizia:

-“Posso ver as pessoas como se fossem de vidro; posso ver a verdade que está em seu coração, mesmo que falem diferente!
-“Se você se encontrasse com Deus, face a face, iria lhe pedir dinheiro para construir orfanatos, hospitais e reservatórios públicos, ou lhe pediria sabedoria?”
- Sobre como viver no mundo: “Um barco pode estar no mar, mas o mar não pode estar no barco!”
-“O que impede as pessoas de alcançar Yoga é somente ‘luxo e luxúria’!”
-“Ore a Deus com o coração anelante, e Ele terá que se mostrar a você!”

Ele podia resumir em poucas e esclarecedoras palavras, todo um mistério metafísico que alguém talvez escrevesse livros para explicar. Quando perguntado se era possível ver Deus, ele afirmava que sim, porém, desde que certas condições fossem cumpridas. Se alguém dissesse desejar conhecer toda a vastidão do Divino Ser, ele simplesmente dizia: “Para conhecer o rio Ganges, terei que percorre-lo desde as nascentes, nos Himalaias, até onde desaparece no oceano? Claro que não! Basta apenas banhar-me nele!” Ou talvez preferisse contar o caso da “boneca de sal” que desejava conhecer a profundidade do oceano, mas à medida que entrava no mar, ia se dissolvendo!

Muito já se escreveu sobre a vida de Sri Ramakrishna, que viveu na Índia entre os anos de 1836 e 1886, no estado de Bengala. A obra que introduziu Sri RK ao ocidente, foi escrita, ou melhor, foi compilada por um de seus discípulos íntimos, Mahendranath Gupta, mais conhecido por M., e se chamou Sri Sri Ramakrishna Kathamrita, traduzida para o inglês como “The Gospel of Sri Ramakrishna”, ou “O Evangelho de Sri Ramakrishna”, em português. Trata-se da reprodução dos encontros presenciados por M. entre Sri RK e pessoas buscadoras da Verdade, algumas depois se fizeram seus discípulos e outras apenas amigos e admiradores, nos quatro últimos anos em que o Mestre esteve com eles.
M. não era monge, como se pode pensar, nem político, nem marajá, apenas professor de uma escola particular; casado e com filhos, morando todos com seus pais. Na época em que conheceu Sri RK passava por grandes provações, pensando até em se suicidar. Tinha aproximadamente 28 anos, mas depois das primeiras visitas, sentindo-se segura na companhia dele, conseguiu reequilíbrio emocional e, por fervorosa devoção, quando retornava a sua casa depois de estar em presença do Mestre, dedicou-se a tomar notas de todas as palavras saídas de sua boca, de memória! Costumava ficar ouvindo, depois meditava no que ouvira e então anotava tudo. Dedicou toda sua vida a suas aulas e a repetir os ensinamentos que recebera diretamente de Sri RK. Passados alguns anos, as pessoas vinham de muito longe para ouvi-lo contar seus relatos, aquelas parábolas e passagens que já esposara como ‘suas’ e que haviam transformado toda sua existência.
O escritor Paul Brunton, em seu livro célebre “A Índia Secreta”, relata um breve encontro que teve com M., em 1936, e disse que este morava na mesma casa de antes e possuía a figura de um verdadeiro Patriarca.
Claro que você não deve ler o “Evangelho” com sua mente comparativa e calculista. Trata-se de uma vida singular, única em seu contexto e sem qualquer comparação. A sugestão é que o faça, quando sua ‘carga’ se tornar insuportável, mas com a mente do ‘desesperado’, do ‘perdido’, do aflito! Assim o remédio terá efeito imediato. Pois é preciso sentir verdadeira paixão pela existência toda, e, por sentir-se separado dela, não podendo recorrer a mais nada, finalmente pode encontrar refúgio nestes santos pés, os pés descalços de Sri Ramakrishna.
By Jay Govinda

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

"Assim era Sri RAMAKRISHNA", contado por Swami Vivekananda

Sri Ramakrishna era filho de um brahmin (de casta elevada) muito ortodoxo, que recusaria receber algo de alguém que não fosse outro brahmin. Também não poderia aceitar um trabalho, nem mesmo o de sacerdote em um templo; não poderia ser 'livreiro', tampouco servir quem quer que fosse! Ele poderia aceitar apenas "o que fosse caído do céu!", ou seja, esmolas, ainda assim não vindo de pessoa de casta inferior. Templos não têm grande papel na religião hindú; se fossem todos destruídos, ainda assim o Hinduísmo não seria nem um pouco afetado. Um homem pode construir uma casa para "Deus e convidados", porém, se para si próprio, seria considerado egoísmo. Sendo assim, ele prefere erguer templos como moradia para Deus.
Devido à grande pobreza de sua família, Sri Ramakrishna foi obrigado a se tornar sacerdote em sua juventude, em um templo dedicado a Kali, a Divina Mãe do universo, representada por uma figura feminina, que  se sustenta em pé sobre uma figura masculina, significando que se maya - o poder ilusório - não for afastado, não se pode conhecer nada. Brahman é neutro, não conhecido e não conhecível; porém, em sua personificação, se oculta sob os véus de Maya e se torna a Matrix do universo, manifestando toda a criação. (...)
O serviço diário à Divina Kali, aos poucos, foi despertando uma tão intensa devoção no jovem sacerdote, que ele não conseguia mais conduzir seu serviço regulamente. Desse modo, abandonou suas ocupações e se retirou a um pequeno bosque nas cercanias do templo, onde se entregou inteiramente à meditação. Este bosque se achava à beira do Rio Ganges, e certo dia, a rápida correnteza trouxe aos seus pés apenas o necessário material para que fosse erguida uma pequena cabana. Nessa condição ele permaneceu, orando, chorando, não se importando o mínimo com seu corpo físico, nem com outra coisa que não fosse sua Mãe Divina. Um parente o alimentava uma vez ao dia e tomava conta dele. Com o tempo, uma mulher, uma asceta feminina, chegou...para ajudá-lo a conhecer a Mãe. Quando necessitava de alguma instrução, o instrutor aparecia, sem ser chamado; de qualquer das seitas, algum homem santo surgia oferecendo-se para instruí-lo, e a cada um deles Ramakrishna ouvia intensamente. Mas, ele considerava a todos como a Mãe...
Sri Ramakrishna nunca falou palavras rudes a ninguém. Tão belamente tolerante ele era, que cada uma daquelas seitas o considerava 'seu'. Ele amava a todos, e para ele todas as religiões eram verdadeiras. Ele era livre, mas livre pelo amor, não pela explosão.(...)
As ondas do pensamento religioso se erguem e se abatem, e no topo de cada onda se posiciona o Profeta da época. Ramakrishna veio para ensinar a religião de hoje - construtiva e não destrutiva. Ele teve que mergulhar fundo em busca da razão das coisas e criou uma religião científica, que não diz "acredite", mas sim, "veja"! "Eu vejo e você também pode ver!" Deus se mostrará a cada um, e harmonia se acha ao alcance de todos. Os ensinamentos de Sri Ramakrishna são a essência do Hinduísmo.
Ele começou a pregar quando estava perto dos quarenta anos, mas nunca saiu de seu lugar para isso. Esperou por aqueles a quem seu ensino se destinava... Sri Ramakrishna é reverenciado na Índia como uma das grandes Encarnações e seu aniversário  é celebrado lá como um grande festival religioso!!
Fonte: "Inspired Talks", by Swami Vivekananda, Vedanta Press, Hollywood, USA.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A Visão de Deus, de acordo com Sri Ramakrishna



     Alguém certo dia perguntou: ‘Senhor, poderia nos dar a visão de Deus?’   Mestre: ‘Tudo depende da vontade dEle, o que uma pessoa pode fazer?  Enquanto  medito em Deus, alguns dias sinto um duradouro despertar interior e noutros dias nada sinto. A pessoa deve fazer um esforço, só então pode ver Deus. Certa vez, em estado elevado, tive a visão de um lago, onde um aldeão retirava água depois de haver afastado uma espuma verde superficial. De quando em quando, tomava água na palma da mão para examinar. Nesta visão me foi revelado que a água não pode ser vista sem que a espuma verde, que cobre o líquido, seja afastada; isto é, não se consegue desenvolver amor por Deus ou obter Sua visão sem trabalho. Trabalho significa meditação, repetição do mantra e tudo mais. Cantar o nome de Deus e Suas glórias também é trabalho, em que se pode incluir ainda caridade, sacrifícios e assim por diante.
      Se você quiser manteiga, deve deixar que o leite se torne coalhada, deixando-o em um lugar tranqüilo. Quando houver se tornado coalhada, você tem que trabalhar duro com a batedeira. Só então poderá obter a manteiga do leite!
      Que vai você aprender sobre Deus em livros? De certa distância você poderá ouvir apenas o rumor do oceano. Ao se aproximar, porém, verá muitos barcos velejando de um lado a outro, pássaros a voar e ondas se quebrando!
     A única coisa necessária é ser apresentado ao senhor da casa. Porque ficar ansioso em saber, por antecipação, quantos jardins e casas, quantas apólices do governo o dono da casa possui? Os criados não lhe permitirão nem mesmo se aproximar, que dirá de lhe adiantar sobre os investimentos de seu amo. Desse modo, de uma maneira ou de outra, torne-se conhecido do dono, mesmo que tenha de saltar sobre uma cerca e levar um empurrão dos empregados. Então, o próprio dono da casa irá lhe relatar sobre suas casas e jardins e seus investimentos. E, o que é melhor, os criados e o porteiro o saudarão ao saberem que já é conhecido de seu senhor.
      Devoto: ‘A questão agora é como se tornar conhecido do dono da casa!’
    Mestre: ‘Por isso disse que o trabalho é necessário. Não basta dizer que Deus existe e continuar desperdiçando seu tempo. Você tem de realizar a Deus de um modo ou de outro. Chore por Ele com um coração anelante. Vocês andam de um lado a outro, como loucos, em busca de ‘luxo e luxúria’, fiquem agora um pouco enlouquecidos por Deus. O que vão alcançar pela simples afirmação de que Deus existe, nada fazendo a este respeito? No lago de Haldarpukur vivem grandes peixes, mas poderá alguém apanha-los simplesmente se sentando em suas margens sem se preocupar? Não, tem-se que preparar algumas iscas condimentadas e jogá-las no lago. Então, das profundezas virão os peixes e você verá ondulações. Isto o deixará feliz. Talvez algum deles salte para fora d’água e você terá uma visão rápida de seu tamanho, e isso o deixará muito contente!’
     Fonte: "Sri Sri Ramakrishna Kathamrita", de autoria de M. Mahendranath Gupta.


segunda-feira, 18 de abril de 2011

Sri Ramakrishna: Luxo e luxúria ou o Azeite do Divino Amor?

Sri Ramakrishna: “Um homem não consegue renunciar às ações enquanto deseja desfrutar dos prazeres mundanos. Enquanto acalenta o desejo por prazer, ele realiza algum tipo de ação. Medite no seguinte exemplo:
Um pássaro pousou, inadvertidamente, no mastro de um barco ancorado no Ganges. Porém, com vagar, o barco abriu velas rumo ao oceano. Quando o pássaro recobrou seus sentidos, não viu margens em nenhuma rota. Alçou vôo em direção ao norte esperando encontrar terra, mas, mesmo indo muito longe, conseguiu apenas cansar-se, não encontrando nada. Que poderia fazer? Retornou ao barco e sentou-se no alto do mastro. Passado algum tempo, voou novamente, desta vez em direção leste. Nenhuma terra encontrou também deste lado: por toda parte viu somente um oceano sem fim. Muito cansado, de novo retornou ao barco pousando no mastro. Após descansar por longo tempo, dirigiu-se para o sul e depois para oeste. Quando não encontrou sinal de terra em nenhuma direção, voltou ao barco e se estabeleceu no mastro. Dali não saiu novamente, assim permanecendo sem voltar a fazer qualquer esforço. Não se sentia mais inquieto ou preocupado. Estando livre de problemas, não fez nenhum esforço a mais!”
“As pessoas do mundo vagueiam pelos quatro cantos da terra em busca de felicidade. Não a encontram em nenhuma parte, conseguindo somente ficar exaustos e enfastiados. Quando, devido ao seu apego à ‘luxúria e cobiça’, colhem apenas miséria, sentem urgência por desprendimento e renúncia. Porém, o que há para desfrutar no mundo? ‘Luxo e luxúria’? São prazeres momentâneos, em um minuto ali estão e na seqüência desaparecem! O mundo é como um céu carregado, de onde chove torrencialmente, a face do sol dificilmente é vista. Há mais sofrimento que outra coisa no mundo.”

Se você entra no mundo sem primeiro cultivar o amor a Deus, vai se emaranhando cada vez mais. Até ser sobrepujado por seus perigos, seus lamentos, suas dores. E quanto mais pensar nas coisas do mundo, mais ficará aderido a elas!

Antes de qualquer coisa, passe óleo em suas mãos, só depois abra a fruta da jaca, do contrário ficarão grudentas devido ao suco pegajoso. Primeiro proteja-se com o azeite do Divino amor, só então se disponha aos deveres no mundo. Mas, para alcançar este divino amor deve-se buscar solidão. Para retirar a manteiga do leite, este deve ser deixado num local tranqüilo para que se torne coalhada: se a vasilha for muito mexida, o leite não ficará coalhado. Portanto, deixe seus outros deveres de lado, sente-se num lugar sossegado e bata a coalhada. Só assim terá manteiga!
Mais ainda, por meditar em Deus em solidão a mente adquire conhecimento, devoção e se torna imparcial. Porém, a mesma mente, se colocada no mundo, perde sua rica aquisição.

Não se consegue um real sentimento de Deus do estudo em livros. Este sentimento é algo muito distinto de aprender por ler. Livros, escrituras e ciência se parecem a pó e palha depois da realização de Deus.
A única coisa necessária é ser apresentado ao senhor da casa. Porque ficar ansioso em saber, por antecipação, quantos jardins e casas, quantas apólices do governo o dono da casa possui? Os criados não lhe permitirão nem mesmo se aproximar, que dirá  lhe adiantar sobre os investimentos de seu amo. Desse modo, de uma maneira ou de outra, torne-se conhecido do dono, mesmo que tenha de saltar sobre uma cerca e levar um empurrão dos empregados. Então, o próprio dono da casa irá lhe relatar sobre suas casas e jardins e seus investimentos. E, o que é melhor, os criados e o porteiro o saudarão ao saberem que já é conhecido de seu senhor.

“Enquanto o homem pensar que Deus se encontra ‘alhures’, ele é ignorante. Porém, ele alcança Conhecimento quando sente que Deus está é ‘aqui’!” Pense no seguinte exemplo:

Um homem desejava fumar. Dirigiu-se a casa vizinha para acender seu cigarro. Era tarde da noite e todos estavam dormindo. Depois de muito bater, alguém apareceu à porta. Ao ver o outro, perguntou: ‘Olá, o que está acontecendo?’ O outro lhe respondeu: ‘Não pode adivinhar? Você sabe quanto gosto de fumar. Vim aqui a fim de acender meu cigarro!’ Então, lhe respondeu o dono da casa: ‘Há, há, há... você é ótimo, vizinho. Deu-se ao trabalho de vir até aqui a estas horas, bater à porta, sem perceber que carrega uma vela acesa em sua mão!”
O que a pessoa tanto procura se acha muito próximo dela. Ainda assim, vagueia de um lugar a outro buscando!
Fonte: "Sri Sri Ramakrishna Kathamrita", por M., ou pelo site http://www.vedanta.org.br/

segunda-feira, 28 de março de 2011

As metáforas que Sri Ramakrishna usava para ensinar...

Sri Ramakrishna costumava dizer: "A pessoa necessita intenso anelo para realizar a Deus!" Nesse sentido, costumava contar uma estória: "Certo aspirante espiritual perguntou a seu guru como era possível realizar a Deus. O guru, sem responder, levou o discípulo até um tanque próximo, e lá, segurando-o, manteve seu corpo submerso. Passado algum tempo, quando o discípulo já não aguentava mais, puxou-o para fora d'água e perguntou: 'Como foi que se sentiu debaixo d'água?' 'Ah, eu estava desmaiando por um pouco de ar!', ele respondeu. 'Quando você se sentir assim por Deus, é certo que irá realizá-lo!"

Uma vez alguém lhe perguntou: “Senhor, o que é um Guru?”, ao que Sri Ramakrishna respondeu: “Ele é como um casamenteiro. O casamenteiro faz arranjos para a união de um amante com sua amada. Do mesmo modo, um guru faz arranjos para o encontro entre a alma individual e seu amado, o Divino Espírito.”
  
Duas situações provocam o riso de Deus. Ele ri quando dois irmãos, ao dividirem um pedaço de terra entre si, estendem uma corda de um lado ao outro, dizendo: ‘Este lado me pertence e o outro lado te pertence !’  Deus sorri e diz consigo mesmo: ‘Todo o universo pertence a Mim, e eles, por causa de um pequeno lote, declaram: Oh, este lado é meu e aquele é teu!’  Deus ri também quando o médico afirma à mãe chorosa, que vê seu filho entre a vida e a morte: ‘Não tenha medo, mãe, eu vou curar seu filho!’ O doutor não compreende que ninguém pode curar uma criança que Deus não deseja salvar!  

"Deus e Sua glória. Este universo é sua glória. As pessoas ao verem Sua glória, esquecem-se de tudo mais. Não querem a Deus cuja glória é o mundo. Todos querem desfrutar de ‘luxo e luxúria’, mas há muita miséria e preocupação nisso. Este mundo é como o torvelinho de um rio, se um bote entra ali não há esperança de resgate! Também pode ser comparado a um arbusto espinhoso; alguém com dificuldade se livra de um maço de espinhos, mas logo está emaranhado por outros. Uma vez dentro de um labirinto, vê-se quão difícil é sair dele. Ao viver no mundo fica-se flambado, como se fosse.’

“Escute. Se um homem crê, verdadeiramente, que  somente Deus faz tudo, que Ele é o Operador e o homem a máquina, então um homem assim é, certamente, liberado em vida. Deus faz seu trabalho, mas as pessoas dizem que são elas! Sabe como? A filosofia Vedanta dá um exemplo: suponhamos que a cozinheira colocou arroz em uma panela, e mais batatas, beringelas e outros legumes para cozinhar. Depois de certo tempo, o arroz, as batatas e o restante começam a saltar dentro da panela, e parecem dizer com orgulho: ‘Estamos pulando, estamos pulando!’ As crianças, ao ver isso, pensam que as batatas, as verduras e o arroz estão vivos, portanto pulam. Os mais velhos, porém, que conhecem a situação, explicam a elas que os legumes e o arroz não estão vivos, não saltam por si mesmos e sim por causa do fogo que está debaixo da panela. Se a madeira que produz o fogo for retirada, não mais se moverão! Do mesmo modo, o orgulho do homem de que é o ‘fazedor’ surge de sua ignorância. Os homens são poderosos devido ao poder de Deus. Tudo se aquieta quando aquela madeira em chamas é retirada. As marionetes dançam alegremente no palco ao serem manejadas com um arame, mas, se este escapar, elas ficam imóveis.
Fonte: "Ramakrishna as we saw Him", by Swami Chetanananda, Vedanta Society of St. Louis

segunda-feira, 14 de março de 2011

As Diferentes Formas de Realizar a Deus, de acordo a Sri Ramakrishna

Sri Ramakrishna: “Seriamente e com sinceridade, Deus pode ser realizado através de todas as religiões. Certas pessoas se permitem discutir à respeito, dizendo: ‘Nada pode ser feito fora da adoração de Kali’, ou ‘Não há salvação exceto aceitando a religião cristã’. Isto é puro dogmatismo! O dogmático afirma -‘Minha religião, apenas, é verdadeira, todas as outras são falsas!’ Esta é uma péssima atitude. Deus pode ser alcançado por diferentes caminhos.
Além disso, outros dizem que Deus possui forma e não é sem forma, e iniciam a discutir. Mas a verdade é que, só pode falar corretamente à respeito de Deus aquele que chegou a vê-lo. Este que, de fato, conhece a Deus, sabe perfeitamente que Deus é tanto com forma, quanto sem forma. Ele possui inúmeros outros aspectos que não se pode descrever.
Certa vez, alguns homens cegos, por obra do acaso, vieram conhecer um animal que alguém lhes dissera chamar-se ‘elefante’. Então, foi-lhes perguntado ao que um elefante se parecia. Cada um deles, assim, começou a tatear o corpo do elefante. Um deles logo afirmou que o elefante era como um pilar; ele havia tocado apenas sua perna. Outro disse que era um grande abanador, pois tocara sua grande orelha. Desse modo, os outros havendo tocado ou sua cauda ou sua barriga, deram suas diferentes versões do elefante. Da mesma maneira, alguém que tenha visto apenas um dos aspectos de Deus, limita Deus àquela visão. É sua convicção de que Deus não pode ser outra coisa mais.”
“Como se pode afirmar que a única verdade sobre Deus é que ele possui forma? Não há dúvida de que Deus vem ao mundo em uma forma humana, como no caso de Krishna. Também é verdade que Deus se revela a Seus devotos em inúmeras formas. Porém, o modo sem forma de Deus também é possível, Ele é o Indivisível Sat-Chit-Ananda como Existência, Conhecimento e Alegria Infinitas. Satchidananda é como um oceano infinito: um intenso frio congela a água da superfície, que flutua no oceano em grandes blocos com formatos variados. De modo semelhante, por meio da suave influência de bhakti, as formas de Deus podem ser vistas à superfície do Oceano do Absoluto. Estas ‘formas’ são próprias aos bhaktas, os amantes de Deus. Mas, quando o Sol do Conhecimento se levanta, o gelo se derrete e se torna água de novo, como antes. Água em cima, água em baixo, por todo lado somente água! Pode ser dito, contudo, que para certos devotos Deus assume formas eternas. Há locais no oceano onde os blocos de gelo não se derretem jamais, assumindo a forma do quartzo.”
Fonte: "Sri Sri Ramakrishna Kathamrita", também dito "O Evangelho de Sri Ramakrishna", autor Mahendranath Gupta, ou pelo site http://www.vedanta.org.br/

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Que força é esta que nos faz andar de um lado a outro sem parar?

Esta reflexão às vezes nos acontece: que força é esta que, todos os dias, nos desperta, nos movimenta e, de certa forma, nos obriga a fazer algo, e assim nos cansa e logo nos põe a descansar?
Que força é esta que mantém, por exemplo, um grande pinheiro de pé, às vezes até por mais de 250 anos? Da mesma forma mantém a laranjeira, a mangueira, o coqueiro, etc. Já percebeu quanto pesa seu corpo estando deitado e como é simples à esta força mantê-lo em pé, e você nem se dá conta? Bem, parece haver ainda um outro poder em nosso corpo, a que chamamos inteligência, que parecem provir de fontes diferentes. Por vezes, até parecem antagônicos, não é verdade? Pelo menos em certas pessoas... Mas, em nós mesmos, podemos verificar como estes dois poderes são e operam de modo diverso. Como pode ser isso? Um é fonte de energia e o outro é fonte de pensamentos! Como pode haver duas fontes em nós? E há quem nos recomende inclinar nossa inteligência àquela força!!! Temos, portanto, a impressão de que existem duas "coisas" em nós: uma somos nós mesmos enquanto 'pensantes', e outra é nossa força ou energia, que nos permite agir conforme pensamos ou decidimos. Será assim mesmo? Será isso verdadeiro?
Sri Ramakrishna nos ensina que percebemos assim por estarmos limitados ao reino de Maya, a Divina Ilusão. Ainda vivemos dentro da jurisdição desta deusa, chamada divina Shakti.
Explicação: "A Realidade é uma e a mesma. A diferença está apenas no nome: aquele que é Brahman é o próprio Atman, e ainda, é também Bhagavan. Ele é Brahman para os seguidores do caminho do entendimento, Paramatman para os yogues e Bhagavan para os amantes de Deus. (...) Os seguidores da Vedanta não-dualista, afirmam que os atos de criação, preservação e destruição, bem como o universo e todos os seres viventes, são manifestações do Poder Primordial, aquele mesmo poder denominado Shakti. Porém, indo mais fundo, você compreenderá que tudo isso é tão ilusório quanto um sonho. Brahman, somente, é a Realidade e tudo mais é ilusório! Porém, mesmo que você raciocine a vida toda, a menos que esteja estabelecido em samadhi, não poderá ir além de sua jurisdição. (...) Portanto, Brahman e Shakti são idênticos. Se você aceita um deles, deve aceitar também ao outro. É como o fogo e seu poder de queimar. Ao ver o fogo, você reconhece também seu poder de queimar. Não pode nem mesmo pensar no fogo sem seu poder de queimar, ou pensar no poder de queimar sem pensar no fogo! Não se pode conceber os raios de sol sem o sol, nem pensar no sol sem seus raios!

Ao que se parece o leite? Oh, você dirá, é algo branco! Não se pode pensar no leite sem sua brancura, e também, pensar na brancura sem o leite!
Assim, não se pode pensar em Brahman sem Shakti, ou pensar em Shakti sem Brahman. Não se pode pensar no Absoluto sem o Relativo ou no Relativo separado do Absoluto!"
Fonte: "Sri Sri Ramakrishna Kathamrita", ou "O Evangelho de Sri Ramakrishna", por Mahendranath Gupta, ou pelo site http://www.vedanta.org.br/

domingo, 23 de janeiro de 2011

Breves relatos da vida de um Avatar: Sri Ramakrishna (III)

Esta passagem, que é uma verdadeira parábola-viva, tem muito significado para a vida moderna. Em qualquer cidade que se esteja, em qualquer lugar do mundo, as pessoas estão vivendo de modo muito artificial. Suas linhas de vida, por assim dizer, se afastaram do natural, e a tônica nestas cidades é: competir, consumir, aparentar ser, antagonizar, tudo temperado de imediatismo e artificialidades. A estratégia mais importante é a ‘dissimulação’, ou seja, a arte de enganar o próximo. Em nossa sociedade mercantil, preparar bem as ‘iscas’ que encobrem um indesejável anzol, a fim de garantir rápida clientela, é uma prática convencional e até tradicional. Faz parte dos rudimentos do mundo dos negócios. Quem é que já não se sentiu, alguma vez, sendo ‘fisgado’? Bem, vemos aqui Sri Ramakrishna explicando, ou melhor, lançando luz, sobre a verdade desta situação.

Swami Abhedananda, cujo nome de família era Kali,  relata o seguinte episódio: "quando éramos ainda rapazes servindo a Sri Ramakrishna, certa vez nos reunimos para ir pescar; meus companheiros, Narendra e Niranjan, não tinham muita experiência na pesca com caniço, por isso, enquanto eles pegaram apenas um peixe, eu pude pegar 4 ou 5. Notícias de minha habilidade de pescar chegaram aos ouvidos do Mestre, assim certa noite, enquanto eu o estava servindo, ele me perguntou: “É verdade que você apanhou muitos peixes com uma vara de pescar?” “Sim,senhor”, foi minha resposta. Então, o Mestre replicou: “É um pecado apanhar peixe com um caniço, pois assim seres vivos estão sendo mortos!”

Em minha defesa, fiz uma citação do Gita: “Aquele que pensa que o Atman é um assassino, tanto quanto o que pensa que o Atman é morto, é ignorante, pois o Atman nem mata nem pode ser morto”. Então, acrescentei: “Assim, porque deveria ser um pecado apanhar o peixe?” O Mestre sorriu e procurou fazer-me entender por vários argumentos: “Quando se alcança verdadeiro conhecimento, não se dá passos em falso!” Súbito, principiou a tossir, e havia um pouco de sangue em sua saliva. Fiquei amedrontado: “Senhor, se continuar a falar isso agravará sua doença. Por favor, não fale mais!” Então, o todo-misericordioso Mestre me disse: “Eu o considero um dos rapazes mais inteligentes dentre os demais. Você compreenderá o que lhe disse através da meditação!”
Então, eu me retirei e conforme suas instruções, comecei a meditar naquilo. Depois de três dias, realizei o significado por detrás da advertência do Mestre. Procurei-o e lhe disse: “Senhor, agora compreendi porque é errado apanhar o peixe. Não farei mais isso. Por favor, me perdoe!” O Mestre ficou muito contente ao ouvir isto. Ele falou: “É enganoso pescar desta maneira. Ocultar um anzol dentro de uma isca e esconder veneno no alimento oferecido a algum convidado, são pecados da mesma espécie.” Humildemente aceitei o que o Mestre disse e senti sua grande compaixão por mim. Mas, ele ainda acrescentou: “É verdade que o Atman nem mata nem é morto. Porém, aquele que compreendeu esta verdade realizou o próprio Atman, assim, porque deveria manter a tendência de matar os outros? Enquanto esta tendência em matar se mantém, ele não está identificado com o Atman, nem possui qualquer Auto-conhecimento. Por isso afirmei que ao alcançar real conhecimento, a pessoa não dá mais nenhum passo fora de ritmo. Você deve entender que o Atman se acha além do corpo, além dos órgãos dos sentidos, da mente e do intelecto, e que ele é a testemunha do fenômeno”. As palavras do Mestre penetraram-me e eu realizei a verdade!”

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O Leão e as Cabras, uma parábola...

Algumas pessoas, mesmo com o passar dos anos, têm ainda a sensação de "peixe fora d'água", isto é, sentem-se deslocadas, inadequadas, incompletas. A maioria, porém, não se sente assim, parecem estar bem encaixadas e ajustadas na vida! Sim, superficialmente parece que sim, parecem felizes e se alguém lhes for falar de espiritualidade ou mesmo yoga, olham para a pessoa como a um estranho! Para uma minoria, o desconforto de viver ainda prossegue, e em sua inquietude vão acabar por descobrir onde reside seu problema: elas não se encaixam na vida porque desconhecem sua verdadeira natureza. Bom, mas o que vem a ser esta "verdadeira natureza"? Sri Ramakrishna para ilustrar esta situação costumava relatar a parábola do leão e das cabras:

"Uma carroça trotava aos solavancos por velho caminho poeirento. Em uma jaula na parte traseira, certa leoa acabava de dar à luz e o filhote agora dormia a seu lado. Um solavanco mais brusco, todavia, fez com que ele rolasse e escapulisse pelos vãos da carroça. A leoa assustada nada fez e o filhote ficou para trás. Um grupo de cabras passava por alí e o filhote foi adotado por uma delas. O tempo passou, as cabras pastavam, baliam, se esfregavam, e o leãozinho fazia o mesmo, era como se fosse uma delas! À noite, dormia entre as cabras sentindo-se seguro, cheirava igual a elas. Mas, aconteceu um dia, o rebanho foi assaltado por um grande leão selvagem. As cabras corriam amedrontadas, porém, no meio delas, o leão divisou uma forma estranha: -'O que é aquilo? Um leão entre estas cabras?', ele pensou! Então, dirigindo-se até lá , urrou alto, fazendo estremecer todo o rebanho: 'Que faz você aqui, vivendo com as cabras? Você é da minha espécie, é leão e não cabra!' O leãozinho tremia tentando explicar: 'Oh, senhor desconhecido, sou apenas uma cabra, não vê?' E balia como para confirmar.
O leão logo o empurrou na direção de uma lagoa, e lá, mirando-se na água, mostrou: 'Olhe, somos iguais, você é como eu!' Mas, o pequeno leão ainda resistia e o outro teve que trazer alguma carne, obrigando-o a engulir um pedaço. No momento em que a carne lhe desceu pela garganta, o pequeno, sentindo o gosto de sangue, naturalmente urrou também. 'Aí está', lhe diz o leão maior, 'você também é um felino, agora me acompanhe até a floresta'."
Assim se dá conosco também, desconhecendo nossa real natureza, vivemos sofrendo e reclamando e tendo satisfação em coisinhas passageiras. Quando, porém, por providência divina, encontramos pelo caminho alguém que nos desperte, devemos entender isso como solução definitiva para nosso mais íntimo problema! 

domingo, 2 de janeiro de 2011

O Néctar das Palavras de Sri Ramakrishna... as Parábolas da vida prática!

Pergunta: ‘Senhor, como devemos viver no mundo?’



Ramakrishna: ‘Cumpra com seus deveres todos, mas mantenha sua mente em Deus. Viva com todos, esposa e filhos, pai e mãe, servindo-os. Trate-os como sendo muito queridos seus, mas saiba no âmago de seu coração, que não lhe pertencem!
Na casa de uma rica família, a empregada faz todas as tarefas domésticas, mas seus pensamentos estão em sua própria casa em um vilarejo distante. Ela cria as crianças como se fossem suas, chegando mesmo a chamá-las ‘meu Hari’ ou ‘minha Radhika’. Porém, em sua própria mente, ela sabe muito bem que não lhe pertencem.
A tartaruga se movimenta na água, mas você adivinharia onde estão seus pensamentos? Lá na margem, onde os ovos foram postos. Faça seus deveres, mas com a mente firme em Deus!
Se você entra no mundo sem primeiro cultivar o amor a Deus, vai se emaranhando cada vez mais. Até ser sobrepujado por seus perigos, seus lamentos, suas dores. E quanto mais pensar nas coisas do mundo, mais ficará aderido a elas!
Antes de qualquer coisa, passe óleo em suas mãos, só depois abra a fruta da jaca, do contrário ficarão grudentas devido ao suco pegajoso. Primeiro proteja-se com o azeite do Divino amor, só então se disponha aos deveres no mundo. Mas, para alcançar este divino amor deve-se buscar solidão. Para retirar a manteiga do leite, este deve ser deixado num local tranqüilo para que se torne coalhada: se a vasilha for muito mexida, o leite não ficará coalhado. Portanto, deixe seus outros deveres de lado, sente-se num lugar sossegado e bata a coalhada. Só assim terá manteiga!
Mais ainda, por meditar em Deus em solidão a mente adquire conhecimento, devoção e se torna imparcial. Porém, a mesma mente, se colocada no mundo, perde sua rica aquisição. No mundo há apenas um pensamento dominante: ‘luxúria e cobiça’!
O mundo é água, e a mente leite. Se você deita o leite na água eles se tornam um; você não encontrará mais leite puro. Mas, torne o leite coalhada e, batendo a coalhada, faça manteiga. Assim, quando a manteiga for colocada na água, irá flutuar. Portanto, pratique disciplina espiritual em solidão e obtenha a manteiga do conhecimento e do amor. Então, mesmo que você mantenha esta manteiga na água do mundo, as duas não vão misturar-se. A manteiga vai flutuar.
Junto com isso, tem de praticar discernimento. ‘Luxúria e cobiça’ são impermanentes. Deus é a única Substância Eterna. O que se obtém com dinheiro? Comida, roupas e um lugar para morar, nada além. Não se pode realizar a Deus com seu auxílio. Assim sendo, o dinheiro jamais poderá ser a meta da vida. Este é o processo de discernimento.”
Extrato de "Sri Sri Ramakrishna Kathamrita", por Mahendranath Gupta. Mais sobre Sri Ramakrishna e Swami Vivekananda em http://www.vedanta.org.br/

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Breves relatos da vida de um Avatar: Sri Ramakrishna

“Todos os problemas terminam quando o ego desaparece. Enquanto um traço da ego consciência permanecer, a pessoa estará vendo diferenças. Ninguém sabe o que restará após o desaparecimento do ego, pois não se pode expressar isso em palavras. Aquilo que é, apenas, permanece!
Satchidananda é o oceano. O pote do ‘eu’ está imerso nele. Enquanto o pote existir, a água parecerá dividida em duas partes: uma parte dentro do pote e a outra parte fora. Mas, quando o pote for quebrado restará apenas uma extensão de água. Nem mesmo isto pode ser dito, quem o diria?”

Alguns o chamavam Venerável Senhor, outros Sri Babaji, ou Paramahamsa Deva, que significa ‘grande cisne divino’; outros ainda de Sri Thakur, ou Kalpataru ou algum outro nome que indicasse proximidade e parentesco. Mas, ele não gostava de ser chamado nem de ‘guru’, nem de ‘santo’ e nem de ‘pai’ ou Baba. Na Índia, acredita-se que a Divindade, de tempos em tempos, assume um corpo físico para restabelecer a verdade e a retidão entre os homens. Muitas são, assim, as encarnações divinas reconhecidas. A estas ‘Encarnações’ dá-se o nome de Avatar. Sri Ramakrishna foi considerado o Avatar da era de Aquário, a era em que estamos vivendo. Mas, ele mesmo, não se impressionava muito com isso!
É claro que se nos perguntassem o que de melhor encontramos em alguém, pedindo que apontássemos suas qualidades, nossa reação seria a de – obviamente- indicar coisas reconhecidas por nossas mentes, talvez comportamentos padronizados. Há, porém, muitos destes ditos padrões, que se tornaram estereotipados, ou seja, o que hoje se chama de ‘figurinha carimbada’! Podemos ainda, admirar muitas qualidades que talvez sejam apenas temporárias, ou mesmo, fruto de nossa imaginação. Imaginamos que alguém seja, por exemplo, um modelo ideal, segundo conceitos modernos. Mas, trata-se somente de padrões de pensamento aceitos em certas épocas. Aprendemos que ser pacientes, esperançosos, respeitosos, bons filhos e bons esposos (as), são qualidades boas e necessárias, indicando que somos ‘confiáveis’! Tudo que presenciamos, conhecendo ou não, desejamos medir, ou aferir, com a régua de nossa mente. Alguém que seja um pouco fora de padrão, ou de natureza diferente, que manifeste gosto por coisas diversas das que gostamos, chamamos logo de ‘excêntrico’, de ‘fenômeno’, de ‘santo’ ou de ‘anti-social’!
Bem, quando surge uma figura extraordinária em campos convencionais de conhecimento, isto é aplicável. Mas, quando se trata de campo religioso ou místico, como Mahatma Gandhi, Madre Tereza de Calcutá ou Sai Baba, não esquecendo o nosso Chico Xavier, nosso vocabulário se torna insipiente, ínfimo, sem profundidade. Quando muito, podemos admitir: ‘Oh, fulano é uma pessoa fantástica!’, ou como se diz hoje – ‘Um figuraço!’, ou, ainda poderíamos arriscar - ‘é um santo!’ Porém, acho que não saberíamos bem do que estaríamos falando.
Aqui temos um personagem, por assim dizer, que os padrões ocidentais de objetividade, de competitividade, de imediatismos e de aparentar ser, não poder nem medir, nem aferir, nem associar.
Vamos, portanto, deixar de lado todas nossas boas intenções de classificar, e deixar nossos modelos, nossos conceitos e valores antigos, por melhores que tenham sido!
Pois, este homem vem, se é possível admitir, de algum Admirável Mundo Novo! Sim, ele não vem de nosso mundo com certeza; ele esteve aqui, mas não pertence a este mundo. Não sei se há nomes para isso, prefiro não utiliza-los. Prefiro referir-me a algumas passagens de sua vida, sobre as quais eu li, algumas fotografias por assim dizer, de momentos que me são ainda mui queridos.
Ele não gostava, como já disse, de ser chamado de ‘guru’; nem de estar com pessoas de mentalidade mundana e nem podia reter em sua mão qualquer objeto de metal, moedas, em particular! Mas, gostava de estar reunido com pessoas puras e com possibilidades de despertar espiritualmente. Gostava também de contar sobre a Sabedoria de Deus, a quem chamava “Mãe Divina”, de desvendar os mistérios do Espírito, para quem estivesse disposto a conhece-los, e era capaz de falar horas a fio, dependendo da qualidade da audiência. Gostava de comida simples, mas bem preparada; gostava de sorvetes, entrava em êxtase com facilidade quando se falava no Nome de Deus, ou, então, preferia cantar ou dançar, a dança dos místicos, aqueles que entram em êxtase bailando, muitas vezes, solitariamente, tarde da noite!
Ele era tão inadvertido de sua pessoa humana que, certa vez, estando nos jardins do templo coletando flores, alguém se aproximou e o tomou pelo jardineiro, perguntando-lhe: “Rapaz, poderia me dizer onde se encontra Sri Ramakrishna?”, ao que ele respondeu: “Olhe, senhor, parece que há alguém aqui com este nome, mas não foi visto hoje ainda!"   (a continuar)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

"O Conhecimento de Deus", de acordo com Sri Ramakrishna

Enquanto o entardecer se aproximava, algumas lamparinas foram acesas na sala e na varanda. Sri Ramakrishna se inclinou diante da Mãe Divina e iniciou o cântico do nome de Deus. Os devotos sentaram-se ao redor, escutando seu doce murmurar. Depois de algum tempo, Sri Ramakrishna falou:

“Se um homem desfruta da alegria de Deus, não consegue desfrutar do mundo. Havendo experimentado a felicidade divina, o mundo lhe parece insípido. As pessoas falam sobre levar uma vida religiosa estando no mundo. Porém, se apenas uma vez experimentassem a alegria divina, não poderiam desfrutar de nada mais. Seu apego aos deveres mundanos iria declinar. Seu deleite espiritual se aprofundando, não poderiam mais levar a cabo seus deveres com o mundo. Pois, mais e mais, haveriam de procurar somente esta alegria. Podem os prazeres sensuais ser comparados ao prazer com Deus? Se ele experimentar deste prazer, importa muito pouco a ele se o mundo continua ou desapareceu.
Estas pessoas dizem que estarão atentas tanto a Deus quanto ao mundo. Após beber um pouco de vinho, alguém pode ficar agradavelmente embriagado e também consciente do mundo; porém, poderá continuar assim quando houver bebido um tanto mais?
Depois da divina embriaguez nada mais tem bom sabor. Então, falar de ‘luxo e luxúria’ é como apunhalar o coração. (Em voz alta): ‘Eu não posso gostar da conversa das pessoas mundanas’.
Quando alguém se torna louco por Deus, não pode gostar mais de dinheiro e coisas assim.”

Devoto: Então, o senhor admite que um homem possa levar vida espiritual estando no mundo?


Mestre: Sim, mas primeiro tem que alcançar Conhecimento e só então viver no mundo. Primeiro tem de realizar a Deus, depois poderá ‘nadar em um mar de calúnia sem se manchar’. Após a realização de Deus, ele pode viver no mundo como o peixe cascudo. Este mundo em que está, após a realização espiritual - é o mundo de vidya, onde não se percebe nem luxo nem luxúria. Ele aí encontra apenas devoção, o devoto e Deus. (...)  Por que se preocupar tanto com o aspecto infinito de Deus? Se quero tocar você, preciso tocar todo seu corpo? Se você deseja banhar-se no Ganges, tem que nadar desde Hardwar até o oceano?
Todos os problemas terminam quando o ego desaparece. Enquanto um traço da ego consciência permanecer, a pessoa estará vendo diferenças. Ninguém sabe o que restará após o desaparecimento do ego, pois não se pode expressar isso em palavras. Aquilo que é, apenas, permanece!
Satchidananda é o oceano. O pote do ‘eu’ está imerso nele. Enquanto o pote existir, a água parecerá dividida em duas partes: uma parte dentro do pote e a outra parte fora. Mas, quando o pote for quebrado restará apenas uma extensão de água. Nem mesmo isto pode ser dito, quem o diria? Excertos de "Sri Sri Ramakrishna Kathamrita", de Mahendranath Gupta (M.)
Mais sobre Sri Ramakrishna em http://www.vedanta.org.br/

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

"O esforço espiritual é necessário?", na visão de Sri Ramakrishna

Pergunta: ‘Senhor, poderia nos dar a visão de Deus?’

Mestre: ‘Tudo depende da vontade dEle, o que alguém pode fazer? Ao cantar o nome de Deus, às vezes correm lágrimas e em outras vezes os olhos permanecem secos. Enquanto medito em Deus, alguns dias sinto um duradouro despertar interior e noutros dias nada sinto. A pessoa deve fazer um esforço, só então pode ver Deus. Certa vez, em estado elevado, tive a visão de um lago, onde um aldeão retirava água depois de haver afastado uma espuma verde superficial. De quando em quando, tomava água na palma da mão para examinar. Nesta visão me foi revelado que a água não pode ser vista sem que a espuma verde, que cobre a superfície, seja afastada; isto é, não se consegue desenvolver amor por Deus ou obter Sua visão, sem trabalho. Trabalho significa meditação, repetição do Nome e tudo mais. Cantar o nome de Deus e Suas glórias também é trabalho, em que se pode incluir ainda caridade, sacrifícios e assim por diante.
Se você quiser manteiga, deve deixar que o leite se torne coalhada, deixando-o em um lugar tranqüilo. Quando houver se tornado coalhada, você tem que trabalhar duro com a batedeira. Só então poderá obter a manteiga do leite!
Quanto das escrituras você pode ler? Que vai obter apenas com o raciocínio? Procure realizar a Deus antes de qualquer outra coisa. Tenha fé nas palavras do guru e trabalhe! Se não tem nenhum guru, então ore a Deus com o coração desejoso e Ele lhe deixará saber como Ele é! Que vai você aprender sobre Deus em livros? De certa distância você poderá ouvir apenas o rumor do oceano. Ao se aproximar, porém, verá muitos barcos velejando de um lado a outro, pássaros a voar e ondas se quebrando!
Não se consegue um real sentimento de Deus do estudo em livros. Este sentimento é algo muito distinto de aprender por ler. Livros, escrituras e ciência se parecem a pó e palha depois da realização de Deus.
A única coisa necessária é ser apresentado ao senhor da casa. Porque ficar ansioso em saber, por antecipação, quantos jardins e casas, quantas apólices do governo o dono da casa possui? Os criados não lhe permitirão nem mesmo se aproximar, que dirá de lhe adiantar sobre os investimentos de seu amo. Desse modo, de uma maneira ou de outra, torne-se conhecido do dono, mesmo que tenha de saltar sobre uma cerca e levar um empurrão dos empregados. Então, o próprio dono da casa irá lhe relatar sobre suas casas e jardins e seus investimentos. E, o que é melhor, os criados e o porteiro o saudarão ao saberem que já é conhecido de seu senhor."
Trecho do livro "Sri Sri Ramakrishna Kathamrita", de Mahendranath Gupta

domingo, 29 de agosto de 2010

"Acendendo a lâmpada do Conhecimento"

Temos aqui mais uma pérola do pensamento de Sri Ramakrishna: como acender a lâmpada do Conhecimento Espiritual. Sim, o conhecimento das coisas práticas é uma parte inicial: são os conceitos, são as medidas, as percentagens, o que foi ganho e o que foi perdido. Mas, agora, para conhecer a nós mesmos, temos que abandonar estas margens aparentemente seguras e mergulhar fundo nas águas da Realidade não-conceitual.Sri Ramakrishna costumava dizer: “Este altar do corpo não deve ficar na escuridão; deve-se iluminá-lo com o lampião da Sabedoria.” O corpo humano é o mais santo de todos os templos. Swami Vivekananda dizia que os templos eram erguidos para homenagear os deuses, porém, que havia um melhor templo- o próprio homem. Ele é o Taj Mahal. Este templo não deveria ser deixado em sombras; uma lâmpada deve ser ali mantida acesa. Esta lâmpada é a luz do Conhecimento. Ramakrishna também dizia: “Uma casa sem luz indica pobreza”. E ainda mais: “Um sinal da mansão de um homem nobre, é que todas as dependências se encontram iluminadas. O pobre não dispõe de muito óleo, e, consequentemente, não pode acender tantos lampiões.”
Do mesmo modo, se a lâmpada do Conhecimento não iluminar o templo do corpo, essa pessoa é realmente pobre. Pode ter fortuna e influência, mas sem conhecimento, estará empobrecida. Sua “casa” se acha na escuridão, e sua vida é um fracasso. “Deve-se acender a lâmpada do Conhecimento no altar do coração!” O propósito da vida humana é acender esta lâmpada do Conhecimento, realizar a Deus. (...)
Tal conhecimento é signo de alguém verdadeiramente rico. Quando contemplamos uma pessoa assim, compreendemos que Deus reside em seu coração. Ela vive em grande júbilo, transmitindo sua alegria aos demais. (...) Sri Ramakrishna ainda afirmava: "Cada lar possui uma conexão para gás, que pode ser obtido dos tanques de armazenamento da Companhia de Gás. Solicite à Companhia que tudo será arranjado para seu suprimento de gás. Assim, sua casa será iluminada.”
Quando a lamparina do Conhecimento for acesa, Deus será manifestado no templo do corpo. Presentemente, sob o domínio dos sentidos e da mente, nos consideramos fracos e pobres. Mas, em realidade, estamos acima do corpo, da mente e dos sentidos. Nenhum poder do Universo é maior do que nós somos!
Há dois modos de alcançar isto; um é o modo dos devotos. O devoto se considera uma criança de Deus, ou um Seu servidor. Dessa maneira, fica intimamente relacionado a Ele, e, como resultado, torna-se também vasto e ilimitado. Deus é sem limites: ao nos tornarmos intimamente associados a Ele, também nos tornamos ilimitados. Mas, é preciso ter cuidado, pois, se pensarmos: “Eu estou a ganhar muito dinheiro”, ou, “Eu estou muito famoso”, ou ainda, “Alcancei grande reputação”, de imediato nos tornaremos de novo pequenos. Afundamos, outra vez, em nosso minúsculo eu. O outro modo é o dos jnanis. O jnani afirma: “Eu mesmo sou Deus. Eu sou Brahman”. Swami Vivekananda declarou: “Ou você diz- eu sou tudo!, ou diz- Tu és tudo! Devotos do Senhor dizem:- Tu és tudo que há!; os jnanis dizem- Eu sou tudo que há! Eles compreendem que tudo é Brahman, e, portanto, eles próprios também são Brahman.
Esta é nossa verdadeira identidade, nosso mais básico relacionamento. Mantemos tantos relacionamentos no mundo, esquecendo, porém, aquele, de fato, mais importante, o relacionamento que nos confere nossa verdadeira identidade. Por causa disso sofremos, e também causamos sofrimento aos demais. Nossa miséria vem do esquecimento de nossa real identidade. Sri Ramakrishna afirmava que o propósito da vida é nos tornarmos estáveis neste relacionamento.
Trecho do livro "The Way to God...", do Swami Lokeswarananda, Institute of Culture, Índia.
Para conhecer mais sobre Sri Ramakrishna, procure em http://www.vedanta.org.br/

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Sri Ramakrishna sobre as diferentes formas de Auto-Realização

Thakurji: “Seriamente e com sinceridade, Deus pode ser realizado através de todas as religiões.
Certas pessoas se permitem discutir à respeito, dizendo: ‘Nada pode ser feito fora da adoração de Kali’, ou ‘Não há salvação exceto aceitando a religião cristã’. Isto é puro dogmatismo! O dogmático afirma -‘Minha religião, apenas, é verdadeira, todas as outras são falsas!’ Esta é uma péssima atitude. Deus pode ser alcançado por diferentes caminhos.
Além disso, outros dizem que Deus possui forma e não é sem forma, e iniciam a discutir. Mas a verdade é que, só pode falar corretamente à respeito de Deus aquele que chegou a vê-lo. Este que, de fato, conhece a Deus, sabe perfeitamente que Deus é tanto com forma, quanto sem forma. Ele possui inúmeros outros aspectos que não se pode descrever.
Certa vez, alguns homens cegos, por obra do acaso, vieram conhecer um animal que alguém lhes dissera chamar-se ‘elefante’. Então, foi-lhes perguntado ao que um elefante se parecia. Cada um deles, assim, começou a tatear o corpo do elefante. Um deles logo afirmou que o elefante era como um pilar; ele havia tocado apenas sua perna. Outro disse que era um grande abanador, pois tocara sua grande orelha. Desse modo, os outros havendo tocado ou sua cauda ou sua barriga, deram suas diferentes versões do elefante. Da mesma maneira, alguém que tenha visto apenas um dos aspectos de Deus, limita Deus àquela visão. É sua convicção de que Deus não pode ser outra coisa mais.”
“Como se pode afirmar que a única verdade sobre Deus é que ele possui forma? Não há dúvida de que Deus vem ao mundo em uma forma humana, como no caso de Krishna. Também é verdade que Deus se revela a Seus devotos em inúmeras formas. Porém, o modo sem forma de Deus também é possível, Ele é o Indivisível Sat-Chit-Ananda como Existência, Conhecimento e Alegria Infinitas. Satchidananda é como um oceano infinito: um intenso frio congela a água da superfície, que flutua no oceano em grandes blocos com formatos variados. De modo semelhante, por meio da suave influência de bhakti, as formas de Deus podem ser vistas à superfície do Oceano do Absoluto. Estas ‘formas’ são próprias aos bhaktas, os amantes de Deus. Mas, quando o Sol do Conhecimento se levanta, o gelo se derrete e se torna água de novo, como antes. Água em cima, água em baixo, por todo lado somente água! Pode ser dito, contudo, que para certos devotos Deus assume formas eternas. Há locais no oceano onde os blocos de gelo não se derretem jamais, assumindo a forma do quartzo.
Estrato de "Sri Sri Ramakrishna Kathamrita", de Mahendranath Gupta.
Querendo conhecer mais click em http://www.kathamrita.org/

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O Néctar das Palavras de Sri Ramakrishna (II)

 Sri Ramakrishna sobre o Conhecimento Perfeito:
 “Enquanto o homem pensar que Deus se encontra ‘alhures’, ele é ignorante. Porém, ele alcança Real Conhecimento quando sente que Deus está é ‘aqui’!”
Escute uma estória:
'Um homem desejava fumar. Dirigiu-se a casa vizinha para acender seu cigarro. Era tarde da noite e todos estavam dormindo. Depois de muito bater, alguém apareceu à porta. Ao ver o outro, perguntou: ‘Olá, o que está acontecendo?’ O outro lhe respondeu: ‘Não pode adivinhar? Você sabe quanto gosto de fumar. Vim aqui a fim de acender meu cigarro!’ Então, lhe respondeu o dono da casa: ‘Ah! ah! ah!... você é ótimo, vizinho. Deu-se ao trabalho de vir até aqui a estas horas, bater à porta, sem perceber que carrega uma vela acesa em sua mão!”
O que a pessoa tanto procura se acha muito próximo dela. Ainda assim, vagueia de um lugar a outro buscando!'
"A Verdade é uma, mas é designada por diversos nomes. Todos estão buscando a mesma Verdade, a diferença se deve ao clima, ao temperamento e às palavras. Em um lago há muitos atracadouros. Em um deles, os hindús pegam água em jarras e a chamam 'jal'. Em outro, os muçulmanos apanham água em bolsas de couro e a chamam 'pani'. Em um terceiro, os cristãos pegam a mesma coisa e a chamam 'água'. Suponha que alguém afirme que aquilo não se chama 'jal', mas 'pani', ou que não é 'pani' e sim 'água', ou que não é 'água' e sim 'jal'. Isso seria de fato ridículo! Porém, esta mesma questão se acha na raiz da divergência entre tantas seitas e alimenta seu desentendimento. Por isto, as pessoas se ferem e se matam umas às outras, derramando sangue em nome de religiões. Isso não faz sentido, todos se dirigem à mesma meta, e irão realizá-la se tiverem sinceridade e anelo em seu coração!"  

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O Néctar das Palavras de Sri Ramakrishna

Sri Ramakrishna estava explicando o significado do sagrado 'OM' e também o real sentido do Conhecimento de Brahman: "O som OMMMmmm... é o divino poder Brahman. Os sábios da antiguidade praticavam austeridade afim de realizar este OM eterno. Mas, o que se pode obter por meramente ouvir este som? Ouve-se o bramido do oceano desde certa distância. Seguindo este bramido, pode-se chegar ao oceano. Enquanto houver este 'bramido', é certo que há um oceano. Seguindo a trilha de OM se alcança Brahman, de quem a palavra é um símbolo.
Pense no sol e em dez jarras cheias d´água. O sol se reflete em cada jarra. A princípio se vê o sol real e dez reflexos dele. Se nove das jarras são quebradas, vai sobrar apenas o sol real e um sol refletido. Cada uma das jarras representa uma alma. Seguindo a imagem refletida pode-se encontrar a imagem verdadeira. Através da alma individual pode-se chegar à Alma Suprema. O que permanece depois que a última jarra for quebrada não se pode descrever.
A alma individual a princípio permanece em um estado de ignorância, não tem consciência de Deus, apenas da multiplicidade. Ela vê muitas coisas ao seu redor. Mas, ao alcançar Conhecimento, fica consciente de que Deus reside em todos os seres. Suponha que alguém está com um espinho na sola do pé. Ele consegue um outro espinho para poder retirar o primeiro. Em outra palavras, ele remove o espinho da ignorância por meio do espinho do conhecimento. Porém, alcançando a Suprema Sabedoria, discarta ambos os espinhos, do conhecimento e da ignorância. Aquele que apenas ouviu falar do leite é 'ignorante'. Aquele que chegou a ver o leite possui 'conhecimento'. Mas, aquele que bebeu leite e se fortaleceu com ele, este possui verdadeiro Conhecimento."
Texto retirado de "Sri Sri Ramakrishna Kathamrita", de Mahendranath Gupta. Querendo conhecer mais, procure em www.vedanta.org.br

domingo, 6 de junho de 2010

Preceitos para praticar o Reto Discernimento

À medida que se avança no caminho do reto entendimento, vai-se compreendendo o valor inestimável de certos procedimentos. Alguns dos passos de Yoga, que já foram apontados na postagem "Meditação em Yoga", fazem parte da abordagem desenvolvida aqui sob o ângulo de 'Mergulhe Fundo'. Um destes preceitos, o de um reto discernimento, pode ser melhor entendido à partir de uma explicação dada por Sri Ramakrishna a um grupo de aspirantes, sobre o necessário cuidado ao se lidar ou associar a pessoas cuja mente não foi ainda colocada sob qualquer forma de disciplina. Diz ele assim:

"Neste mundo de Deus há uma variedade de coisas: homens, animais, árvores, plantas. Entre os animais, alguns são próximos, outros selvagens. Há animais ferozes, como os tigres. Algumas árvores dão fruto doce como néctar e outra frutos venenosos. O mesmo se dá com os seres humanos, há os bons e os máus, os decididos e os indecisos. Há os que se devotaram a Deus e os que se devotaram ao mundo.
Mas, mas todos eles podem ser classificados em quatro categorias: os sem liberdade, ou sem desejo por liberdade, que são apanhados na rede da mundanidade; os que buscam liberação, os que têm sucesso nessa busca e se tornam livres, e os sempre livres.

Os sempre livres, como o sábio Narada e outros, vivem no mundo para o bem da humanidade, e são como seus instrutores.

As almas sem liberdade são aquelas que permanecem obcecadas com as coisas do mundo, se esqueceram de Deus e jamais pensam nele.
Logo estão as que buscam liberação, algumas delas a conseguem e outras não. As que conseguem são almas livres, que venceram luxúria e cobiça – são os sadhus e mahatmas, em quem não há mais traço de mundanalidade. Suas mentes permanecem fixas aos pés de lótus de Deus.

Quando uma rede é lançada nas águas de um lago, há alguns peixes muito espertos que não se deixam apanhar nela. Estes são como as almas sempre livres. Contudo, a maioria realmente é apanhada pela rede. Alguns destes se esforçam para escapar, são como os que buscam libertar-se, porém nem todos eles conseguem. Alguns poucos escapam da rede com grande estardalhaço, ao que os pescadores comentam – ‘Lá se vai um dos grandes!’ A maioria deles, porém, não pode escapar e nem mesmo chegam a tentar; com a rede presa em suas bocas, se enterram na lama e lá permanecem quietos, pensando que estão a salvo e que não há mais nada a temer. Não se dão conta de que os pescadores, em seguida, vão arrastá-los para fora d´água e separá-los. Estas são as almas sem liberdade.
Estas almas ligadas se emaranharam à rede de luxúria e cobiça, e se acham presas dos pés à cabeça. Chegam mesmo a crer que naquele lodaçal vão encontrar felicidade e segurança. Não percebem que estão para encontrar a morte em estado de servidão. Quando uma destas almas ligadas está para morrer, sua esposa lhe diz: ‘ Você se vai, mas o que está deixando para mim?’ E seu apego ao que possui é tanto que, mesmo naquele momento, ao ver uma lamparina acesa, dirá: ‘Diminua aquela luz, está gastando muito óleo’.
Estas almas ligadas não pensam em Deus. Se dispõem de algum tempo de lazer, gastam-no em conversas ociosas ou atividades inúteis. Se você perguntar a uma delas o que está fazendo, responderá: ‘Não me posso sentar sossegado, assim estou erguendo esta cerca!’ Ou mesmo, quando a coisa aperta, talvez comecem um jogo de cartas!"

Do livro "Sri Sri Ramakrishna Kathamrita", 'O Néctar das Palavras de Sri Ramakrishna', cap. 1

terça-feira, 1 de junho de 2010

O Néctar das Palavras de Sri Ramakrishna

"Deus e Sua glória. Este universo é sua glória. As pessoas ao verem Sua glória, esquecem-se de tudo mais. Não querem a Deus cuja glória é o mundo. Todos querem desfrutar de ‘luxo e luxúria’, mas há muita miséria e preocupação nisso. Este mundo é como o torvelinho de um rio, se um bote entra ali não há esperança de resgate! Também pode ser comparado a um arbusto espinhoso; alguém com dificuldade se livra de um maço de espinhos, mas logo está emaranhado por outros. Uma vez dentro de um labirinto, vê-se quão difícil é sair dele. Ao viver no mundo fica-se flambado, como se fosse.’

‘Não é para qualquer pessoa ser um guru. Um enorme tronco flutua sobre a água e pode carregar animais consigo. Mas, um pedaço de madeira sem valor, se alguém se sentar nele vai afundar. Por conseguinte, em cada era, Deus se encarna como o Guru para ensinar à humanidade. Somente Satchidananda é o Guru!

"Maya não é mais que ‘luxo e luxúria’ (kamini kanchan). A pessoa alcança Yoga quando liberta a mente destes dois. O Ser Supremo é o ímã e o ser individual é uma agulha. O ser individual vivencia o estado de Yoga quando é atraído pelo Ser Supremo. Porém, o ímã não atrai a agulha se esta se acha coberta com barro. Só quando o barro for removido a agulha poderá ser atraída. O barro de ‘luxo e luxúria’ deve ser retirado!

"Duas situações provocam o riso de Deus. Ele ri quando dois irmãos, ao dividirem um pedaço de terra entre si, estendem uma corda de um lado ao outro, dizendo: ‘Este lado me pertence e o outro lado te pertence !’ Deus sorri e diz consigo mesmo: ‘Todo o universo pertence a Mim, e eles, por causa de um pequeno lote, declaram: Oh, este lado é meu e aquele é teu!’ Deus ri também quando o médico afirma à mãe chorosa, que vê seu filho entre a vida e a morte: ‘Não tenha medo, mãe, eu vou curar seu filho!’ O doutor não compreende que ninguém pode curar uma criança que Deus não deseja salvar!

"A verdade é que só Deus é real, a Eterna Substância, tudo mais é ilusório. Homens, universo, casa e filhos – todos estes são como a magia do mago. O mago golpeia sua varinha e diz: ‘Vem ilusão, vem confusão!’ Logo diz à audiência: ‘Levantem a tampa da vasilha e vejam os pássaros voarem para o céu!’ Mas, só o mago é real e sua magia irreal. O irreal existe durante um segundo e logo se desvanece.
Somente a água é real, por exemplo, suas borbulhas aparecem e desaparecem; se desvanecem na mesma água da qual surgiram. Deus é como um oceano e os seres viventes são como suas borbulhas. Nascem ali e ali morrem. Os filhos são como as poucas borbulhas que cercam a maior. Deus somente é real. Façam um esforço para cultivar amor por Ele, e encontrem um meio de alcançá-lo. Que vão ganhar afligindo-se?

"Existe em Deus tanto conhecimento quanto ignorância, tanto vidya quanto avidya. Vidyamaya conduz a Deus e avidyamaya afasta a pessoa de Deus. Conhecimento superior, devoção, compaixão e renúncia pertencem ao reino de vidya, com sua ajuda nos aproximamos de Deus. Mais um passo e se alcança a Deus, o Conhecimento de Brahman. Neste estado a pessoa sente e vê com clareza que foi Deus que se tornou tudo. Então, ela não tem nada a renunciar, e nada a aceitar. É impossível a ela sentir raiva por qualquer outro.

Do livro "Sri Sri Ramakrishna Kathamrita", por Mahendranath Gupta

sexta-feira, 7 de maio de 2010

SIGA ADIANTE! A Parábola do Lenhador

"Certa vez um lenhador embrenhou-se na floresta afim de cortar madeira. Sem que soubesse, alí encontrou um Ermitão, que vivia retirado. Este santo lhe disse: 'Meu bom homem, siga adiante!' Ao  regressar, o lenhador pensou: 'Por que o Ermitão me disse - siga em frente?' Algum tempo depois, lembrando-se do conselho, resolveu: 'Hoje irei mais para dentro ainda na floresta!' Como resultado, descobriu um lote novo de madeira de sândalo. Ficou muito feliz, carregou sua carroça com aquele sândalo e retornou. Com a venda daquela madeira tornou-se muito rico!
"O tempo passou, de novo recordou as palavras do homem santo para que seguisse adiante. Entrou mais profundamente ainda na mata e descobriu, perto de um rio, uma grande mina de prata. Isso estava bem além de seus sonhos. Explorando a mina, vendeu a prata no mercado e reuniu tanto que nem sabia quanto.
"Mais algum tempo passou. O pensamento lhe voltou: 'O Ermitão não me disse que parasse na mina de prata; disse-me para seguir adiante!' Desta vez, alcançando o outro lado do rio, acabou por descobrir uma mina de ouro. Então, exclamou: 'Ah, veja só, por isso me pediu para seguir em frente!'
"Algum tempo depois, resolveu embrenhar-se um pouco mais na floresta, encontrando jazidas de diamantes e outras pedras preciosas. Apoderando-se de todas, tornou-se tão rico quanto a própria Deusa da riqueza."

Sri Ramakrishna costumava se referir a esta parábola para explicar algo bem mais sutil do que possa ela aparentar: "Dizemos sempre que o trabalho é apenas o primeiro passo. Não pode ser a meta da vida. Devote-se à prática espiritual e siga adiante. Assim fazendo, avançará cada vez mais no caminho de Deus.  
Ao final, ficará sabendo que apenas Deus é real e tudo mais é ilusório e que a verdadeira meta da vida é a realização de Deus."

Em outras palavras, 'siga adiante' quer dizer o mesmo que 'mergulhe fundo'! Quer dizer: não fique pensando que já chegou apenas por haver acumulado um pouco disto e daquilo. Não há meio termo em questões espirituais, pois se trata de conhecer a Verdade sobre si mesmo. É preciso alcançar  100%, ou seja, seguir nossa prática de conscientização até encontrar 'ouro e pedras preciosas'!

OM Namah Shivaia - encontro Oriente e Ocidente



Meditação em Yoga: Em yoga Clássica, a yoga de Patanjali, ciência que demonstra a potencialidade possível ao homem, há oito passos a completar, envolvendo disciplinas tanto físicas qto. mentais. Na 1ª destas etapas, se acham disciplinas relativas à autoeducação, ou auto-controle, tais como: não violência (ahimsa), veracidade (satyagraha), continência (brahmacharya), etc. Na etapa seguinte, dita das 'observâncias', estão a prática de pureza, contentamento, esforço sobre si mesmo, estudo e consagração ao Ideal.

O 3° passo, ou 3ª pétala da Flor de Yoga, trata das posturas ou âsanas, ou seja, os modelos gestuais recomendados aos que aspiram algum domínio sobre seu corpo. A quarta etapa é dos 'pranayamas', isto é, as disciplinas necessárias ao controle da energia através da respiração. Pratyahara é a etapa em que se aprende a controlar os sentidos. Dhârana, a 6ª etapa, se ensina a concentração da atenção. O sétimo passo, denominado Dhyâna, se refere às tecnicas de introspecção ou de meditação, e o último degráu chama-se Samadhi, ou completa absorção no Ideal Espiritual.

Este é o caminho de Yoga, relevante símbolo atual do encontro entre Ocidente e Oriente.

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